sábado, 24 de novembro de 2018

Crítica: estamos formando biólogos ou eternos bolsistas?



Quase 4 anos após a graduação, posso dizer: as faculdades estão muito longe da realidade de mercado. Sabe o Darwin? Ele é o que muitas das gerações de biólogos são hoje ainda: pode escolher biologia, mas não vive da biologia.

Como Biólogo, digo: muita ciência, pouca aplicação. Muitos títulos acadêmicos, pouco reconhecimento de mercado, sociedade e necessidade. Biólogo gosta de estar entre seus pares, a diferença entre likes do Facebook e citações é menor do que se pensa, não é? Mas a pergunta que fica é: quem ganha o reconhecimento da população e que paga até o acesso da revista científica?

Em minha graduação tive exatas 50 disciplinas. Se não fosse meu estágio curricular e cursos extras, além de minha experiência prévia desde os 16 anos, estaria no mesmo limbo da maioria de meus colegas: ou não se formaram ou não tem experiência prática relevante para o mercado, e o resultado é o desemprego.

É realmente desolador ver que colegas perdem 4/5 anos de suas vidas em uma graduação, mas saem dela sem saber o que é um CNAE, o que é uma ME, MEI, SIF, REBLAS, PIQ, IN, RDC ou mesmo em que áreas de atuação podem ou não assinar um laudo.

É entristecedor ver colegas que focam a faculdade toda em um laboratório acadêmico, em que aprendem uma única técnica não entenderem as justificativas de não serem contratados.

Estarrecedor ouvir de uma consultora farmacêutica na área regulatória ficar surpresa com um Biólogo RT perante a ANVISA. "Mas você pode ser o RT? A ANVISA aceitou?".

Os formados saem das faculdades sem saber abrir uma empresa, sem saber em que áreas estão habilitados, em que áreas podem trabalhar autonomamente.

Os culpados disso tudo? Os Biólogos!

Logo quando saí da universidade, meu primeiro emprego foi em um laboratório clínico. No interior do Estado de São Paulo, eram 4 laboratórios na cidade, mas só eu de Biólogo. O restante ou eram farmacêuticos ou eram biomédicos. 

Logo na primeira semana, escuto:

Técnica em Enfermagem: Dr. Fernando! O senhor aprendeu a fazer hemograma?
Fernando: Aprendi em São Paulo, mas por favor, me chame de Fernando que não sou Dr.

Demorou um mês para todos os profissionais que não eram de nível superior pararem de me chamar de Doutor. Foi difícil fazer a Enfermeira Chefe, os Farmacêuticos e Biomédicos que mesmo sendo bacharel como eles, eu não podia ser intitulado doutor. O biólogo era o único não doutor ali dentro.

A história acima existe por um motivo. No mundo dos Biólogos, ser doutor é um título acadêmico. As regras para o biólogo são: não use títulos que não possua. No mundo da saúde, ser doutor significa ser tratado no mesmo nível que um médico, que na maioria das vezes e no máximo, é especialista. Ao invés de se tratar médicos pelo nível que são, as outras classes da saúde habilitaram todos ao "Doutor (a)".

O problema gerado é que, na saúde, só o Biólogo não é Doutor. O médico sai da universidade abre sua clínica, o farmacêutico sai da faculdade e abre sua farmácia, o biomédico termina seus estudos e abre o laboratório. O biólogo costuma correr para uma vaga de mestrado, ou porque acha que só aquilo para ensinar algo, porque não conhece outro caminho ou porque os outros caminhos na iniciativa privada disseram não, mas a bolsa do CNPQ é bem vinda. Inclusive já ouvi mais de uma vez que o "ser" só se sentiu um biólogo de verdade depois do doutorado.

O profissional que acha que é capaz somente após o doutorado, sinto lhe dizer: é um frustrado. Ele precisou do título para se sentir no mesmo nível no mundo que ele vive, mas o mundo real exige a formação em Ciências Biológicas e o CRBio ativo. As chances de um doutor possuir as mesmas lacunas e erros da graduação que o impossibilitam de pleitear vagas, é visível pelo número de desempregados. E o pior, passaram mais seis anos pesquisando apenas um ou dois assuntos, mas querem concorrer em vagas de conhecimentos amplos.

Uma vez ouvi de um doutor em botânica: 

Dr: Que absurdo aquele concurso, cobrava muita legislação ambiental e pouca botânica! 

O que me perguntei mentalmente: se era para analista ambiental, o que achava que ia cair? Fotossíntese?

Ano que vem, os cursos de farmácia terão obrigatoriamente 5 anos, no mínimo 4 mil horas, os estágios terão de começar a partir do 3º semestre, 60% em farmácia clínica e atenção farmacêutica, 30% em análises clínicas (voltou a ser obrigatório) e 10% de livre escolha. Estamos falando de estágio de no mínimo 800 horas.

Nós da biologia, brigamos para ter 360 horas de estágio. Ainda bem que fiz mais de 2000 horas!

A Farmácia extinguiu o título de bioquímico para fortalecer a profissão de farmacêutico. Ninguém mais se formará e poderá se intitular farmacêutico-bioquímico. Ele é Farmacêutico. O biólogo quando atinge a pós, é geneticista, zoólogo, pesquisador, cientista, TUDO, menos biólogo!

Como se quer que o mercado leve a sério um profissional que diz que só se sente preparado depois de 10 anos de estudo? Como se quer que nos levem a sério, se as coordenações de cursos aceitam como "estágio" as iniciações científicas em que nada tem haver com o mercado de trabalho e nem exigem que o professor que dá esse estágio tenha CRBio ou outro conselho qualquer?

Na cidade de São Paulo, é notório em como os Biólogos se dão bem em controle de pragas e vetores. Mas também se vê que apesar disso, são pouquíssimas as faculdades locais que se preocupam em ministrar disciplinas na área, como: Pragas e Vetores, Entomologia Aplicada, Bioempreendedorismo, Química Aplicada.

As coordenações se eximem de contratar profissionais com experiência de mercado, alegando que o que importa é a titulação, pois seguem as regras do MEC. Tá cheio de Doutor e Mestre que também é empresário ou atuante, mas geralmente, não estão mais fazendo pós doc 1, 2, 3... Os coordenadores dizem que se o curso de biologia tiver 4 mil horas como o Conselho Nacional de Saúde prega que tenha, vai ter pouca procura. Adianta ter muita procura se 90% dos colegas ficam reféns de bolsas de pós-graduação e que muitas vezes só o atrasa para começar a pagar o INSS? A maioria nem atua e nem continua os estudos, parando na graduação. E não vemos a procura dos cursos de farmácia diminuírem por ter carga maior. As pessoas vão atrás de sonhos e prestígio, não adianta nivelar por baixo. Os cursos de engenharia tem 5 anos e ninguém diz que desistiu só porque era de 5 anos.

Daí lemos nos descritivos dos cursos por aí, que tem ênfase em meio ambiente. O biólogo sai da faculdade sem saber elaborar um orçamento de poda de árvore! O Biólogo sai da faculdade achando que trabalhar com meio ambiente é fazer inventário de fauna e flora, ou no máximo, gestão de unidades de conservação. Ele é incapaz de pleitear uma vaga na área de sustentabilidade industrial sem uma especialização, porque os professores nunca pisaram em uma indústria! Tem gente que sai da faculdade sem ter aprendido o que é um POP, BPL ou BPF!

Como querem que seus alunos sejam preparados para o mundo do trabalho se a maioria dos professores nunca atuou no mercado de trabalho? Mestrado e Doutorado NÃO É MERCADO DE TRABALHO!!! É CONTINUAÇÃO DOS ESTUDOS!!! Para ser professor não se precisa ser Biólogo, mas para ser Biólogo, precisa da graduação em Ciências Biológicas, CRBio ativo e uma chance no mercado de trabalho!

Acha que seu curso está bom? Faça uma pesquisa com todos os formados na sua universidade e veja quem trabalha na área, quem está empregado. Use como chamariz para sua universidade! Índice de empregabilidade de ex-alunos é o terror de muitas coordenações!

O trabalho na graduação é de formar biólogos, e não aspirantes à sua linha de pesquisa. Pensa nisso professor! A graduação forma o profissional biólogo, e não seus títulos após a graduação.

Estamos formando biólogos ou eternos bolsistas?



Fernando Cesar é Jornalista do Blog Biologia Profissional, Biólogo, Especialista, Analista de Laboratório na área de alimentos, Responsável Técnico na área de Saneantes, Diretor em uma associação estadual e Diretor em uma Federação.

8 comentários:

  1. Com a palavra o CFBIO!
    360 h de estágio, sempre achei poucas. E deviam ser obrigatoriamente em espaço diferente da instituição de estudo, ou ao menos 50% delas.

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  2. Excelente. Há ainda algo obscuro nos concursos públicos que, quando incluem vagas para biologos, geralmente ė 01 (uma) vaga para ampla concorrencia e as demais para cadastro de reserva. Estagios quando tem so se for voluntariado (nada contra trabalho voluntário, mas em biologia isso é a regra). Muitos concursos ainda colocam no mesmo pacote biólogo bacharel e licenciado, ora são atuações diferentes, e tb há os que exigem doutorados em áreas ultraexclusivas onde o tema da tese define a vaga... A coisa e muito séria!

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  3. Bom texto. Concordo e tenho tentado trazer a experiência profissional para dentro da academia. Acho que sempre podemos mudar e melhorar.

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  4. Infelizmente muitos desses profissionais que ensinam, não estão preocupados em mudar o sistema. Eles estão empregados, e muitos alegam que isso é uma luta apenas de nós alunos. Somos uma equipe, precisamos trabalhar em conjunto. Precisamos fazer um curso que atenda as principais áreas de atuação. Um curso com mais especificidade. Não dá para forma um profissional tão geral assim, sem uma carga horário de estágio equivalente a obtenção de um experiência significativa.

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  5. Concordo com muitos pontos do seu texto mas peço que não menospreze ou diminua os bolsistas. Assim como você quer ser respeitado como biológo, eu quero ser respeitada como biologa e como cientista. Uma vez tive que escutar: mas você vive so de bolsa?? Eu entrei na graduação e logo no início decidi que iria fazer mestrado e doutorado, eu admirava meus professores phD e queria ser como eles, sempre fui apaixonada pela ciência. A maior parte da ciência básica e aplicada no Brasil e no mundo é produzida por bolsistas. Eu vou ao laboratório todos os dias, chego às 8 -9 e vou embora as 16-17... não tenho férias, não recebo décimo terceiro e ainda levo trabalho para casa com frequência. Eu preciso fazer relatórios, passar por avaliações anuais e participar de reuniões, ou seja, se isso não é trabalho, eu não sei o que é. O fato de não ser considerado trabalho até mesmo por outros biólogos é o que torna a nossa vida tão difícil e a nossa profissão tão desvalorizada. É como se a experiência trabalhando 6 anos num laboratório de pesquisa não contasse como nada para o mercado de trabalho, como se fôssemos eternos estudantes ou eternos bolsistas como vc escreve no seu texto.

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    1. Ana, obrigado por comentar.

      O meu texto não é para quem deseja ser pesquisador e/ou professor, é para quem entrou na graduação querendo ser Biólogo. Lá no descritivo do curso consta que ele pode fazer um monte de coisa. Não diz que muitos cursos são cursos preparatórios para mestrado ao invés de preparar ele para ser Biólogo. Não está escrito que vai sobrar pra ele dar aula. Tem muita gente que deseja ser professor, mas quem entra no bacharelado, geralmente não.

      Eu também fiz iniciação científica, adorei. Foi na Escola Paulista de Medicina - UNIFESP com apneia obstrutiva do sono. Minha equipe era composta por biólogos, fisioterapeutas, profissional de educação física e biomédicos.

      Então, o ponto não é a valorização da pós-graduação. É a valorização do Biólogo. Ser cientista ou pesquisador é uma função que o Biólogo pode pleitear, e não a profissão em si.

      Mas não, me desculpe, pós-graduação não é trabalho. Vai ser se você passar em um concurso para pesquisador ou professor. Na pós graduação não há relação de contratante-empregado. Se falhar, você não é demitido, você reprova. Os horários e dedicação são fixados pelo fator bolsa, mas você pode fazer sem a bolsa também. Você faz prova, tem carteira de estudante, paga meia no cinema e no transporte. Um aluno de graduação pode ter exatamente as mesmas obrigações e no geral: vc tem um professor, tem que fazer provas, receber notas, fazer DP, apresentar seminários e fazer um TCC. A tese e dissertação pode até ser mais complexa, mas tem o mesmo fim da monografia da graduação. Só que isso não é demérito. Nenhum trabalho dá título. O ensino e a sua finalização sim.

      Mas e depois do doutorado? Você vai abrir seu instituto de pesquisa? Uma startup? Vai fazer pesquisa com bolsa até abrir uma vaga na universidade ou estará preparada para pleitear uma vaga na indústria ou ONG? Qual seu objetivo de carreira?

      Se você tem uma carreira bem planejada, e quer ser pesquisadora, ela começa após o doutorado. Até lá, você tem professor acima de você, e não, ele não é seu chefe, mesmo que ele se ache e te solicite coisas que não deveriam ser feitas por alunos, justamente pq você não é empregada dele. Todo mundo faz? É exatamente o status quo que torna muitos dos bolsistas depressivos e até se suicidam. Quem levanta a voz, é dito como prepotente ou fraco...

      Isso tudo não te desmerece em nada, só que vai caber a você saber o que fazer depois que a bolsa acabar e você ser doutora. Quando você vai transformar sua pesquisa em trabalho?

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  6. Formei a dois anos e é exatamente o que estou passando, quero ser Biológo não cientista e nos msm dificultamos nossa profissão. A cituacão tá cada vez pior, tem colega de curso meu que nao sabe pra que serve o CRBio.

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