domingo, 10 de junho de 2018

É coisa de Biólogo: Paisagismo

Biólogo Murilo Cruciol
Chegou a hora de mais uma reportagem da série "É coisa de Biólogo"! Dessa vez entrevistamos um Biólogo de uma área em que os trabalhos são visíveis para todos os seres humanos: o paisagismo.

O Paisagismo é área do Biólogo há muito tempo, mesmo que praticada de uma forma que você não sabia, ou seja, legal mas pouco difundida entre nossa profissão, vide a cidade de Vinhedo/SP, com projetos do Gutaaf Winters, já citado aqui no blog. Verifique a beleza de muitos jardins botânicos também. Quando falamos de reconhecimento pelo CFBio, na primeira metade dos anos 2000, a Resolução CFBio nº 10 de 2003, que dispõe sobre as atividades, áreas e subáreas do conhecimento do Biólogo, indicou a Botânica Aplicada e Botânica Econômica como área de atuação. 

Já em 2010, o CFBio expediu a Resolução nº 227, que dispõe sobre a regulamentação das atividades profissionais e as áreas de atuação do Biólogo, em Meio Ambiente e Biodiversidade, Saúde e, Biotecnologia e Produção, para efeito de fiscalização do exercício profissional, já indica o Paisagismo e Arborização Urbana explicitamente. Essa resolução veio para pavimentar o caminho até a Resolução 449/2017, que trata das diretrizes para o Biólogo atuar em Paisagismo.

O entrevistado da série é o Murilo, que era e é leitor e comentador assíduo do blog, e que mais tarde, descobri ser um profissional com muita bagagem na área do Paisagismo! As fotos estampam parcelas de seu trabalho!


Blog - Olá, Murilo. O que é Paisagismo? Existem nomes diferentes para a área?

Murilo - Olá Fernando. Paisagismo é definido como a arte de criar, projetar, gerir e proteger os espaços livres. Sejam eles livres de áreas edificadas ou de áreas urbanizadas. O Paisagismo exige uma ação de projeto, de como trabalhar aquele espaço em todas as suas escalas. Não é uma ação puramente estética, mas sim uma ação que busca equilibrar funcionalmente, ambientalmente e esteticamente o ambiente em sua relação com o homem, trazendo qualidade de vida para todos. O Paisagismo pode receber o nome também de Arquitetura da Paisagem e é importante não confundir Paisagismo com jardinagem, a qual se caracteriza apenas pelo conjunto de técnicas usadas no plantio e manutenção dos jardins. 



"Daí na faculdade eu entrei querendo a área laboratorial, fiz alguns estágios e vi que ali não era a minha paixão, até que tive a matéria de Paisagismo dentro da disciplina de Botânica Econômica! Aí foi a realização para mim".




Blog - Há quanto tempo trabalha com isso? Como foi parar em uma área tão bela, mas pouco explorada pelos Biólogos?
Murilo - Eu trabalho há 9 anos com Paisagismo, contando com o período de estágio. Na verdade o Paisagismo existe na minha vida desde muito cedo. Desde os meus 13 anos eu já tinha meu orquidário e era um comprador compulsivo de revistas de paisagismo :). Adorava a revista Natureza e ficava horas lendo as matérias e aprendendo os nomes das plantas, as técnicas de cultivo e os projetos. Na época do ensino médio, quando não queria prestar atenção na aula, eu ficava “projetando” jardins nos cadernos. Daí na faculdade eu entrei querendo a área laboratorial, fiz alguns estágios e vi que ali não era a minha paixão, até que tive a matéria de Paisagismo dentro da disciplina de Botânica Econômica! Aí foi a realização para mim. Em menos de uma semana eu larguei a Iniciação Científica, entrei como estagiário em um escritório e estou na área até hoje.
Blog - Quais são os profissionais que trabalham com Paisagismo?
Murilo - Hoje no Brasil nós temos cerca de 5 profissionais habilitados com suas legislações específicas para trabalhar com Paisagismo (pensando em uma formação de curso superior): Arquitetura, Agronomia, Engenharia Florestal, Ciências Biológicas e Artes. Fora estes, existem os cursos técnicos e temos apenas um curso de Composição Paisagística na UFRJ. Veja que todos estes não formam o paisagista propriamente dito, são formações amplas que englobam esta profissão. Com isso forma-se um generalista que apresenta falhas em alguma esfera de conhecimento desta área. Vale ressaltar que a profissão paisagista não é regulamentada no Brasil como um ramo independente de atuação e formação profissional.
Blog - O que um Biólogo pode fazer ao se especializar?
Murilo - O Biólogo possui 2/3 dos conhecimentos científicos exigidos pela profissão. O conhecimento botânico, o entendimento ecossistêmico, fitopatologia, nutrição vegetal entre outras coisas. Mas como disse antes, o paisagismo é uma área multidisciplinar e, por isso, a arte utiliza a ciência como ferramenta para sua expressão. Então nos falta a questão artística e espacial. O biólogo deve procurar cursos de especialização sérios que contribuam com conhecimentos de composição, desenho, história do paisagismo, estilos e, claro, entender bem de construção civil. Porque nós intervimos no espaço livre, porém, no ambiente construído. E é aí que temos que entender até onde vai nossa atuação profissional, por exemplo, não projetamos pergolados, piscinas e estruturas arquitetônicas. Mas podemos ter parcerias onde a Biologia e a Arquitetura trabalham juntas e daí saem resultados incríveis.
Blog - Qual trabalho realizou até agora, que te deixou marcado?
Murilo - Dois trabalhos me marcaram muito. Um foi o projeto de um terreno com muito remanejamento topográfico que tínhamos um topógrafo junto e íamos acertando os detalhes finos do terreno com nossa equipe, enquanto ele fazia a parte mais bruta, além disso, tivemos um grande número de transplantes de palmeiras adultas neste terreno, o que foi bem desafiador e eu coordenei tudo.  E o outro foi um jardim vertical de quase 30m² em uma parede que também era o limite da piscina. Foi incrível projetar cada detalhe de como esse jardim seria construído e colocar a mão na massa no plantio e ver ele lindo hoje, é bem recompensador. 















Blog - As pessoas estranham quando diz que é Biólogo? Já sofreu preconceito por ser Biólogo?
Murilo - Sim. Completamente. Muita gente já me menosprezou por ser biólogo, mas sabe, é o que eu sempre digo para os estudantes que me procuram: o preconceito sempre vai existir porque nós biólogos acostumamos a sair correndo cada vez que levantam o tom para nós. Você não tem que discutir, você mostra o seu trabalho e a sua resposta é a sua competência.
Blog - Como foi sua reação ao ler a Resolução CFBio 449/2017? E as reações de outras profissões?
Murilo - Eu fiquei muito feliz. Costumamos dizer que o conselho não é atuante e que não faz nada, mas dessa vez ele fez e bem feito. Já era tempo deles publicarem uma resolução normatizando essa área. O grupo de trabalho que foi responsável pela resolução incluiu nomes reconhecidíssimos no país todo, como o Gustaaf Winters, responsável por inúmeros projetos de macropaisagismo urbano. Infelizmente a posição de outras profissões não foi tão positiva. Vivemos um período estranho onde “meio ambiente” é área de todos, onde qualquer um pode dar "pitaco" e atuar, porém quando nós reafirmamos algo que é do biólogo (e nem reafirmamos exigindo exclusividade), ocorre um "chororô" e até mesmo atitudes violentas como as que eu sofri em grupos de rede social. Parece que a Biologia é muito bem vinda para passar as informações para eles, fazer a pesquisa de base e entregar tudo mastigado para que outros façam a sua aplicação, o que na verdade é um grande disparate.
Blog - Pela formação generalista, biólogos tem uma visão do meio ambiente diferenciada, assim como uma formação muito forte em botânica. Como esse tipo de formação pode ser aproveitado no Paisagismo pelo Biólogo? É um diferencial no mercado?
Murilo - Com certeza e aí eu sempre reafirmo, é o nosso maior diferencial. É onde nós podemos nos destacar realizando projetos em que ao mesmo tempo nós recuperamos ambientes perturbados, degradados e trabalhamos a melhoria estética do espaço agregando os programas. Veja, nosso objeto de interferência é o espaço livre e hoje, com o caos ambiental presente nas nossas cidades, este tipo de conhecimento é imprescindível para começarmos a construir um ambiente urbano equilibrado e ambientalmente responsável. Desde parques e praças até mesmo nas casas e apartamentos, cada espaço é uma pecinha que fecha uma paisagem completa, muito maior e mais dinâmica. O paradigma em torno da escolha das espécies vegetais, por exemplo, está mudando nos últimos anos com a crescente exigência de espécies nativas na composição destas áreas verdes e não vejo ninguém mais preparado que o biólogo/botânico para isso. Grandes nomes do paisagismo brasileiro também falavam isto, como Roberto Burle Marx e Fernando Chacel, que aliás, acho uma lástima os cursos de Biologia não ensinarem quem foram estes homens e o incrível trabalho que fizeram e o respeito que tinham por nós e pelo nosso trabalho.
Blog - Apesar do reconhecimento pelo CFBio, você acha que as graduações tem dado preparo para um biólogo sair da universidade e abrir um escritório? O que acha que pode melhorar na formação atual do Biólogo?
Murilo - De forma alguma. E não é só relacionado com o Paisagismo, é com toda a área de atuação. E isso é um ponto de vista bem difundido. Pergunte a qualquer biólogo formado ou estudante de biologia e a resposta é praticamente unânime, a formação é em 2018 estruturalmente um curso de 1900 e bolinha, salvo raríssimas exceções. É uma vergonha. Os cursos de Ciências Biológicas no nosso país precisam URGENTEMENTE de uma reforma do começo ao fim pegando das normativas do CFBio até os docentes. É uma forma de raciocínio toda baseada nessa decoreba para passar em provas, é igual ao ensino médio. Aulas expositivas, cansativas, laboratórios repetitivos, nenhuma visão de aplicabilidade do conhecimento, é praticamente uma repetição dos livros didáticos do ensino médio. Isso é uma vergonha. Quanto ao paisagismo ficamos reféns dos conhecimentos das cadeiras de Botânica e Ecologia, até mesmo quando temos Botânica Econômica é um conteúdo teorizado. Não dá pra ser assim. Paisagismo é uma das áreas de fronteira da Biologia, é onde há ação, aplicação do conhecimento, até quando vamos ficar insistindo em formar profissionais bons de repetir ensinamentos e conteúdos clássicos? Isso pra mim se chama formar para vestibular e não para profissão. Então as graduações precisam ser repensadas, a linha de raciocínio precisa ser reestruturada, o estudante precisa ter a certeza que vai fazer um curso que vai preparar ele tanto para uma atuação profissional mercadológica quanto para a área acadêmica (que jamais deve ser diminuída para implementar a outra abordagem).
Blog - O que os alunos de Biologia e Biólogos podem buscar para serem Biólogos Paisagistas?
Murilo - Primeira coisa: estudar. Muito. Estudar demais. É outra pegada, não tem o mesmo ritmo que a área acadêmica, você vai criar espaços, você vai resolver problemas reais de conforto, de estética, de degradação ambiental, de produção de alimentos como as hortas urbanas, então antes de tudo, entenda que é uma outra realidade e que isso demanda estudo e preparo para tal, estudo autodidata. A faculdade não vai te preparar para isso. Hoje com a internet tem muito conteúdo à disposição, em livros, grupos de paisagismo, cursos técnicos e especializações como o IBRAP, por exemplo.  Aí você vai estudar os seus pontos fracos e vai atrás de um estágio em escritórios de paisagismo. Vai encontrar dificuldade imediata quanto a não ser arquiteto, mas mostre vontade, tenha compromisso e se dedique. Estudo + estágio + dedicação, essa é a fórmula. O Paisagismo é nossa área e precisa de nós.
Blog - Você faz mestrado em Arquitetura e Urbanismo na área de conforto térmico associado a paredes verdes. Como foi a receptividade de um Biólogo no meio dos Arquitetos da UNESP de Bauru?
Murilo - Exatamente. Depois de anos trabalhando em escritório, eu decidi entrar para o mestrado e, de novo, depois de uma busca intensa em programas de pós-graduação de Biologia eu me vi desolado por não encaixar este tema em nenhum deles. Nem nos programas de Botânica, nem de Ecologia, todos eram sempre as mesmas coisas e quando tinha algo aplicado, não abraçava a ideia. Aí eu tive na Arquitetura todo o aparato para desenvolver minha pesquisa com o tema que eu amo, com o conhecimento de mercado que a academia geralmente tanto despreza e com um grupo de professores que me receberam com o maior carinho do mundo. O Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da UNESP-Bauru me recebeu com todo carinho, aprendi e estou aprendendo muito e estamos muito motivados, desenvolvendo bons projetos juntando Paisagismo, Biologia e Arquitetura.  A troca de conhecimentos é riquíssima e eu espero que mais programas de pós-graduação deixem de ser tão fechados em suas caixinhas e possam abraçar projetos interdisciplinares e ousados, porque a construção do conhecimento é assim, ela não é fechada em cercas conteudistas.
Blog - Já recebeu convites para ministrar ou coordenar cursos na área?
Murilo - Sim. Desde que entrei no mestrado recebi convites para palestras e aulas em cursos de Biologia, Arquitetura e estou à disposição para isto. O trabalho com jardins verticais é incrível e tem muita coisa boa ainda para ser pesquisada e ensinada. Eu acho que a decisão de você entrar na área acadêmica deve ser muito ponderada e ser claro o porquê você está lá. No nosso país é claro e declarado que área acadêmica gera professores universitários e é meu objetivo futuro. Se fosse para um aprofundamento voltado ao mercado, com certeza eu teria buscado outras modalidades de pós-graduação.
Blog - Deixe uma mensagem para os Biólogos interessados em Paisagismo, sobre o que eles encontrarão se focarem nisso.
Murilo - Vocês encontrarão uma área encantadora, libertadora e desafiadora. Há uma demanda que precisa de solução e é incrível quando você coloca todo seu conhecimento aplicado e consegue resolver. Você percebe que mudou para melhor a vida das pessoas envolvidas com aquele espaço em tão pouco tempo. Encontrarão dificuldades, mas elas fazem a vitória final ser mais gostosa. Lembrem-se: estudo, comprometimento e trabalho.

Obrigado pela entrevista!

Murilo Cruciol Barbosa é Biólogo, formado pela Faculdade de Ciências da UNESP de Bauru, aluno de mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da UNESP de Bauru, ganhou o 1º lugar na apresentação de painéis no primeiro Congresso de Biologia na mesma universidade (2018) e trabalha com Paisagismo desde 2010, projetando e implantando jardins.

Contato: murilo_cruciol@yahoo.com.br

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