quarta-feira, 15 de março de 2017

É coisa de Biólogo: Citologia Clínica

Bióloga Fabiana Vilaça
Depois de tanto tempo, apresentamos aos nossos leitores mais uma reportagem da série "É coisa de Biólogo"! Dessa vez entrevistamos uma bióloga de uma área mais especializada dentro dos laboratórios: a citologia clínica.

A Citologia Clínica já era reconhecida como área da Biologia Laboratorial indiretamente no início da década de 90, através da Resolução CFBio nº 12 de 1993, que dispõe sobre a regulamentação para a concessão de Termo de Responsabilidade Técnica em Análises Clínicas e dá outras providências, pois cita como obrigatório o conhecimento em citologia e histologia (para não citarmos as outras disciplinas).

No início dos anos 2000, a Resolução CFBio nº 10 de 2003, que dispõe sobre as atividades, áreas e subáreas do conhecimento do Biólogo, indicou a citologia nas áreas de Ciências Morfológicas, elencando o grupo de conhecimento em Anatomia humana, Citologia, Embriologia humana, Histologia, Histoquímica e Morfologia, dentre outras áreas do Biólogo.

Foto: Angelo Gustavo Di Stefano, Biomédico.
Já em 2010, o CFBio expediu a Resolução nº 227, que dispõe sobre a regulamentação das atividades profissionais e as áreas de atuação do Biólogo, em Meio Ambiente e Biodiversidade, Saúde e, Biotecnologia e Produção, para efeito de fiscalização do exercício profissional, citando explicitamente a área de Análises Citopatológicas (Citologia Clínica). Com essa última resolução, não houve mais dúvidas de que a Citologia Clínica é área de conhecimento e campo de trabalho do Biólogo.

A entrevistada da série é a Fabiana Vilaça, que eu encontrei no CRBio Digital pelo extenso currículo, especialmente para falar um pouco da área para vocês!



É coisa de Biólogo: Citologia Clínica


Blog - Bom dia, Fabiana! O que é a Citologia Clínica? Existem outros nomes para essa área?

Fabiana - Bom dia. A Citologia Clínica é um ramo da citologia que estuda variações morfológicas inflamatórias e neoplásicas em amostras biológicas, como esfregaços cérvico – vaginais, urina, mama, tireoide, entre outros. Sim, a citologia clínica também pode ser chamada de citopatologia ou citologia oncótica, estando ligada ao estudo da Anatomia Patológica.

Blog - Quais são os profissionais que realizam a Citologia Clínica?


Fabiana - Podem realizar a Citologia Clínica Biólogos, desde que tenham especialização na área, assim como Farmacêuticos, Biomédicos e Médicos Patologistas.

Blog - Quais tipos de técnicas são utilizadas? Que tipos de patologias e desordens se conseguem descobrir através da Citologia Clínica?

Fabiana - Para elaboração das lâminas que serão visualizadas no microscópio óptico utilizamos, na maioria das vezes, a técnica de coloração de Papanicolaou, mas, também podem ser utilizadas outras técnicas de coloração com Shorr e Hematoxilina/Eosina. A Citologia Clínica é capaz de detectar alterações hormonais, lesões inflamatórias, infecções por fungos, protozoários, bactérias, vírus, lesões neoplásicas e cânceres.

Blog - Como você se tornou Bióloga Citologista? O que te chamou atenção na área?


Fabiana - Tornei-me Bióloga Citologista pois estagiei nesta área desde o primeiro ano da faculdade. Comecei aprendendo as técnicas de coloração e rotina de triagem de um laboratório de Anatomia Patológica, e depois passei a estudar o arquivo de lâminas de citologia da instituição, para aprender a diferenciar as estruturas nos esfregaços. Juntamente com o estágio participei de congressos, simpósios, cursos e palestras na área de citopatologia para poder solidificar meus conhecimentos na área. Logo percebi que a citologia clínica estava interligada com a anatomia patológica e a biologia molecular, tanto que aprendi a realizar macroscopia de peças anatômicas e fazer PCR, Hibridização in situ e outras técnicas laboratoriais de manipulação de DNA. Foi isso que mais me chamou a atenção na área: a citologia clínica é multidisciplinar, não exige apenas conhecimentos em biologia celular e morfologia, o que faz do citologista um profissional disputado, sendo quase impossível não encontrar emprego nessa área. Terminando a faculdade ingressei no curso de aprimoramento (pós- graduação) em citologia oncótica e passei a atuar como citologista.

Blog - Conte-nos um caso especial para você. Por exemplo algo que te deixou orgulhosa de ser Bióloga Citologista...


Fabiana - O bom de ser Bióloga Citologista é que você pode ajudar as pessoas a se prevenirem de doenças como o câncer, por exemplo,  eisso é o que me deixa mais orgulhosa.

Blog - Sabemos que os Biólogos sofrem preconceito em determinadas áreas de atuação. Você sofreu algum tipo de preconceito? Se sim, como conseguiu superar?


Fabiana - Realmente, os Biólogos sofrem preconceito sim, principalmente dentro de laboratórios. Comigo não foi diferente. Porém, consegui superar esse preconceito e conquistar respeito e credibilidade através da minha atuação profissional e constante atualização, pois eu nunca deixei de estudar. Além disso, a citologia clínica é uma área onde quem é competente não perde espaço para o preconceito, pois, ou você sabe ou você não sabe, e não tem como enganar, pois sua rotina de trabalho é sempre revisada por algum outro profissional da área, geralmente um médico, afim de evitar resultados falsos positivos ou falsos negativos. Ou seja, você pode errar, o que é normal para qualquer ser humano, mas jamais você poderá realizar um exame de citologia clínica sem dominar o que está fazendo.
A biologia sendo aplicada
pela Bióloga Fabiana Vilaça
Blog - O que um Biólogo precisa fazer para atuar na área, e o que nos diferencia em relação aos outros profissionais? O que nossa formação traz de diferente?

Fabiana - Para ter espaço dentro da Citologia Clínica, como eu já disse, um Biólogo deve manter-se atualizado, ou seja, sempre estar estudando, sendo que, o que nos diferencia dos outros profissionais é a nossa formação multidisciplinar, pois temos conhecimento em áreas como zoologia, botânica, fisiologia, biologia molecular, anatomia, evolução, genética, ecologia, o que nos possibilita ir além das alterações morfológicas celulares.  Esse conhecimento nos permite entender o motivo das alterações celulares que encontramos nas lâminas citológicas.

Blog - Você acha que a atual formação dos biólogos os prepara para o mercado de trabalho?


Fabiana - Depende muito do foco que a universidade dá para o curso de graduação em Ciências Biológicas, pois, geralmente, a maioria dos cursos foca na área ambiental. Então, cabe ao aluno, interessando-se pela área de citologia clínica, correr atrás de estágio ou cursos na área. Aliás, foi exatamente o que eu fiz.

Blog - Você indicaria locais para a especialização em Citologia Clínica?


Fabiana - Para especialização em Citologia Clínica eu indicaria o curso de Aprimoramento Profissional em Citologia Oncótica. (PAP). Mas, existem também os cursos de pós – graduação em Citopatologia da UNIFESP – Escola Paulista de Medicina e do IPESSP.

Blog - Deixe uma mensagem para os Biólogos, graduandos e estudantes em geral que gostariam de entrar na área de Citologia Clínica.


Fabiana - Para atuar na área de Citologia Clínica devemos ir além da observação de alterações morfológicas. Temos que ser multidisciplinares e buscar atualização sempre. A Citologia Clínica é uma área que emprega muitos Biólogos justamente porque exige dedicação, comprometimento e conhecimentos sólidos em Biologia Celular e Molecular, Microbiologia, Imunologia, Parasitologia, Virologia, Anatomia e Fisiologia.

Obrigado pela entrevista!

Fabiana Aparecida Vilaça é Bióloga, formada pela Universidade São Judas Tadeu, especialista em Citologia Oncótica pelo Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo (Programa de Aprimoramento Profissional – IAMSPE), mestre em Ensino de Ciências pela Universidade Cruzeiro do Sul, possui anos de experiência como Bióloga Citologista em laboratórios e hospitais, além de ministrar aulas em universidades, unindo a academia e a prática profissional.

Contato: fabiana_bio@hotmail.com


Vocês gostaram? Vejam também:

É coisa de Biólogo: Programa Saúde da Família
É coisa de Biólogo: Circulação Extracorpórea

E ainda a publicação em "Direito do Biólogo":
A legalidade do Biólogo nas Análises Clínicas e Citopatologia



5 comentários:

  1. Respostas
    1. Entendo as declarações da Fabiana Villaça porque já trabalhei por mais de 6 anos em um laboratório de anatomia patológica onde eu fazia macroscopia de peças anatômicas e clivagem de material para confecção de lâminas para análise histopatológica. o trabalho é duro e supervisionado por médicos patologistas que acham que são melhores que os biólogos por causa de sua formação em medicina. De fato, a oferta de emprego é muito boa nessa área, mas os salários estão longe de serem atraentes.

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    2. Parabéns p!elo seu trabalho Fabiana!
      Vou mostrar para a bióloga que faz essa parte no Laboratório de Patologia que trabalhamos.

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